
O APRENDIZ
(o pema preferido da Amália)
No ventre de minha mãe
meus lábios aprendi a mover.
Seu sagrado ventre rasguei
abri a boca e clamei
o direito de viver!
Rompi seu ventre sagrado
e deitei-me depois a seu lado
para do Mundo me esconder!
Nos braços de minha mãe
seu magro seio aprendi
na minha boca a reter.
Suguei seu leite seu sangue
e descobri um país exangue
onde aprendi a crescer!
Em casa duma vizinha
encontrei o que não tinha
algo que pedira em vão!
Ela pareceu não escutar
não o tinha para me dar
loiro trigo doirado pão!
Para a escola da minha rua
lá fui descalço cabeça nua
para tudo assim aprender.
Levava na minha sacola
aquela sensação de esmola
de quem olha sem me ver!
Diante duma igreja passei
baixei os olhos e entrei.
Dei com Cristo crucificado!
A seus pés ajoelhei
o amor do mundo supliquei
mas Cristo ficou calado!
Assim segui pela vida
levando a boca escondida
a minha boca calei!
Dessa boca fiz um forte
couracei-me no meu porte
e nada mais mendiguei!
Nos olhos de minha mãe
Silêncios aprendi a colher
Atravessei seu olhar fechado
E nele me quedei enleado
Até a vida me perder!
Cobri seu rosto gelado
E deitei-me depois a seu lado
Para do mundo me esquecer!
Rogério do Carmo
Paris, 5 de Julho de 1989
