O TESTAMENTO
(a Fernando Pessoa pelo cinquentenário da sua morte)

Um dia quero caír caír sem um latido
Num obscuro ermo campo de batalha
Como um soldado mortalmente atingido
Lutando por uma causa absurda na metralha
Como tantos outros soldado desconhecido
Fuzilado impunemente contra a muralha!

No sítio onde sem o compreender tombar
Soldado ou poeta homem sem uma única ilusão
Quero apenas isto vos pedir vos suplicar:
Abram sem um soluço uma cova bem funda no chão
Perto da minha trincheira víctima da vossa guerra
Lutas carnificinas sem qualquer porvir
E deixem tombar sobre mim terra terra muita terra!
Que seja logo imediata e completamente esquecido
Nesta terra onde tudo é nojo tudo se destrói!
Depois de por essa terra ter sido coberto englutido
Não quero ser nem mártir nem santo nem herói
Nesta terra por onde sempre passei despercebido!

Não quero póstumas placas nem tardivas consagrações
Quero ser apenas enterrado totalmente submergido!
Não quero vossos remorsos nem vossas orações
Quero apenas o vosso amor enquanto for vivo
E à minha vida possam dar uma razão um sentido!
No meu lúgubre cortejo não quero saber das vossas flores!
Não quero lágrimas nem homenagens nem missas nem rumores!
Não vos quero à minha beira todos de luto trajados!
Quero apenas que me olhem bem nos olhos
Estes tristes olhos suplicantes humildes marejados
E me abram os braços a recolher meus escolhos.

Quando partir a jámais quero apenas isto vos legar:
Um nome. O meu nome! O meu insignificante nome!
Um nome que vos proíbo absolutamente de pronunciar!

Rogério do Carmo
Villejuif, 16/3/1986