RENÚNCIA
Recuso acreditar seja no que seja! - Chegou!
E muito menos naqueles que um dia tanto amei
E tudo o que a vida me trouxe a vida me levou
Para trás das costas há muito que já deitei!
Quisera ser montanha onde arado rasgasse fundo
Pois que gume agreste onde me fira já eu sou!
Perdido em busca de quimeras por esse mundo
Que esta minha maneira de amar nunca aceitou!
Já penitenciei este meu pecado de querer viver
Viver rir rir e cantar ejacular como toda a gente!
E todo este caminho que só me resta a percorrer
Vou percorrê-lo cabisbaixo mudo! Indiferente!
Que o desdem que de mim escorre se desprende
Seja um claro apelo para os outros se afastarem
E que este meu ser que não recua, não se rende
Baixe seu estandarte para os outros se calarem!
E se alguma vez eu tenha de ser belo e tentador!
E minha boca por alguém loucamente apetecida
Hei-de recusar-me todo! E cuspir o meu rancor!
Em troca desta maldita sina que me foi atribuida!
Se alguma vez alguém à minha porta venha bater
Essa porta que dissumula este meu grande amargor
Não! Não estarei em casa para abrir para o receber
E basta! Basta desta fome absurda do vosso amor!
Rogério do Carmo
Lisboa, 2/4/1960
