A SALA
De que me vale estar inerte na carpete
Ao canto da sala em ébria prostração
Como alguém tentando desesperadamente
Alhear-se da sua própria solidão?
De que me vale que a luz seja irreal
E as velas amarelas
E que a lua penetre diáfana pelo cortinado
A encher a sala de um belo tom azulado
Se em nada me ilumina esta imensa escuridão?
Que me importa que a música seja de sonho
E que chegue até mim numa carícia
Se não tenho ninguém a meu lado
A quem possa transmitir
Este frémito do meu corpo masturbado?
De que me valem cigarros ardendo mansamente
A crepitarem docemente junto aos meus ouvidos
Se tudo é ermo e vácuo em meu redor
Um redor onde me perco
Sem sequer tentar encontrar em mim
O que há em mim de melhor?
De que me vale recordar noites e noites sem fim
Uma voz que deixei de ouvir
Se não consigo deter em mim
Este desejo de partir?
Vou deitar mais vinho no meu copo
E pôr outro disco a girar
Acender outro cigarro e encher de fumo a sala
Falar sòzinho para crer que estou acompanhado
E cobrir meus lábios sequiosos
Com meus próprios pulsos
A fingir que alguém me veio beijar.
Soprem as velas abram todas as janelas
Deixem o fumo saír e a noite alagar-me
Apaguem-me os cigarros e levantem-me do chão
Quebrem-me todos os discos e todas as garrafas
E beijem-me longamente para eu adormecer.
Mas não pensem que vou assim esmolar
Pela vida fora -aqui ali e mais além-
Não!
E se o telefone tocar se o telefone tocar
Eu não estou não estou para ninguém!
Rogério do Carmo
Lisboa, 16/10/1957
De que me vale estar inerte na carpete
Ao canto da sala em ébria prostração
Como alguém tentando desesperadamente
Alhear-se da sua própria solidão?
De que me vale que a luz seja irreal
E as velas amarelas
E que a lua penetre diáfana pelo cortinado
A encher a sala de um belo tom azulado
Se em nada me ilumina esta imensa escuridão?
Que me importa que a música seja de sonho
E que chegue até mim numa carícia
Se não tenho ninguém a meu lado
A quem possa transmitir
Este frémito do meu corpo masturbado?
De que me valem cigarros ardendo mansamente
A crepitarem docemente junto aos meus ouvidos
Se tudo é ermo e vácuo em meu redor
Um redor onde me perco
Sem sequer tentar encontrar em mim
O que há em mim de melhor?
De que me vale recordar noites e noites sem fim
Uma voz que deixei de ouvir
Se não consigo deter em mim
Este desejo de partir?
Vou deitar mais vinho no meu copo
E pôr outro disco a girar
Acender outro cigarro e encher de fumo a sala
Falar sòzinho para crer que estou acompanhado
E cobrir meus lábios sequiosos
Com meus próprios pulsos
A fingir que alguém me veio beijar.
Soprem as velas abram todas as janelas
Deixem o fumo saír e a noite alagar-me
Apaguem-me os cigarros e levantem-me do chão
Quebrem-me todos os discos e todas as garrafas
E beijem-me longamente para eu adormecer.
Mas não pensem que vou assim esmolar
Pela vida fora -aqui ali e mais além-
Não!
E se o telefone tocar se o telefone tocar
Eu não estou não estou para ninguém!
Rogério do Carmo
Lisboa, 16/10/1957
