A POESIA ANDA LÁ FORA
Não me fales nunca mais das noites de vigília emparedada
Nem me perguntes roucamente pelos meus poemas os meus ideais
Eles estão recalcados e latentes em minha boca sedentada
E que só tu se soubesses poderias fazer acontecer ainda mais!
E nada percebes das distâncias desmedidas que vou sulcando
Nem dos gritos imperceptíveis e rouquejantes que vou lançando!
Mas não vás ficar triste nem sorrir-me docemente
Embora teus sorrisos me arrancassem desta lassidão
Nunca saberias ser triste suficientemente
Nem dar-me oiro bastante que abalasse a minha decisão!
Vai nessa janela toda aberta acesa toda acesa até ao fim
Cabelos desgrenhados pelo arrepio da tua luxúria intensa
Gritar a minha epidérmica ânsia louca sensual e densa
E vive também um pouco mais ainda um pouco mais por mim!
Vai e cede noutros braços mais quentes mais vivos e reais
E esfrangalha teus lábios em sangue e chama desabrochados
Em outra boca qualquer outros lábios que não são os meus
Porque eu sòzinho ao crepúsculo de uma lâmpada apagada
No fundo silencioso e frígido do meu quarto vazio
Continuarei a esperar-te e a amar-te perdidamente
Na estupidez da minha ambiguidade incrível!
Embora eu possa e consiga viver sem ti
Rente aos meus lábios sem lábios
Eu morro lentamente por cima do que sou
Debruçado em meu poço transbordante
Que nehuma sede ainda me matou!
E eu hei-de coaxar noite fóra nessas águas
E esticar meus dedos de verme para as estrelas
E na noite imensurável que me cerca e me sufoca
Eu hei-de chafurdar no absurdo das minhas mágoas!
Quando eu passar hirto pelas ruas a caminho da terra fria
Sob o meu sonho poisado em núvens que os olhos não profanam
Eu sei que o teu adeus não assomará a nenhuma das janelas!
Mas deixa que eu sepúlcro do meu grito desgarrado
Prossiga por fim liberto sem derrotas nem vitórias
Balouçando aos ombros dos que me levam por ofício
Porque eu hei-de renascer em folhas verdes
Todas as primaveras deslumbrantes que hão-de vir
E flutuar no desprendimento doirado de todos os outonos
Nos braços do meu sonho intangível que o mundo julgou tocar
E que vão sustendo o sol no seu magnífico esplendor.
E as águas as aves as flores irão pròdigamente desabrochar
Em hinos de som de luz de vida e de cor
Quando alguém rendidamente à sua beira o meu nome pronunciar.
E eu não recusarei o meu nome a essa boca tão beijada
Porque o meu nome há-de ser lançado à terra com saudade
E desse nome dessa saudade e dessa terra pisada há-de brotar
Uma árvore grossa e altiva como um homem de braços tortos e crispados
Mil braços de homem erguidos aos céus num desvairado clamor
A lembrar ao mundo que eu passei na vida esguio e solitário
Com olhos de criança que chorou e com mãos de quem vai esmolando amor
E com esgares de quem o amor nunca na vida se lembrou!
E os braços hão-de encher-se de folhas verdes como poemas
Que eu pobre fraco e mortal nunca ousei escrever
E que a humanidade caminhando na rotina nunca saberia ler!
Então nos braços entroncados dessa árvore tosca e muda
As aves chilreando virão fazer os ninhos e pôr os ovos
E aos pés à sombra à beira deste homem apagado e despercebido
Os machos e as fêmeas vão fecundando os sexos furtivamente
E seus gritos de sofrimento de cio de gozo e de tédio
Vão-me deixando impávido estéril absorto indiferente!!!
Não me perguntes nunca mais pelos meus poemas as minhas dores
Nem venhas nunca mais bater-me à porta pedir loucas ventanias
Pergunta-me antes pelas minhas mãos que eu sempre vi vazias
E vem enchêlas de terra de raizes de frutos e de flores!
Não busques poesia nas minhas mãos doidas frias brancas e nuas
Porque a poesia a verdadeira poesia anda à solta perdida pelas ruas!
Rogério do Carmo
Lisboa, 4/7/1958
Não me fales nunca mais das noites de vigília emparedada
Nem me perguntes roucamente pelos meus poemas os meus ideais
Eles estão recalcados e latentes em minha boca sedentada
E que só tu se soubesses poderias fazer acontecer ainda mais!
E nada percebes das distâncias desmedidas que vou sulcando
Nem dos gritos imperceptíveis e rouquejantes que vou lançando!
Mas não vás ficar triste nem sorrir-me docemente
Embora teus sorrisos me arrancassem desta lassidão
Nunca saberias ser triste suficientemente
Nem dar-me oiro bastante que abalasse a minha decisão!
Vai nessa janela toda aberta acesa toda acesa até ao fim
Cabelos desgrenhados pelo arrepio da tua luxúria intensa
Gritar a minha epidérmica ânsia louca sensual e densa
E vive também um pouco mais ainda um pouco mais por mim!
Vai e cede noutros braços mais quentes mais vivos e reais
E esfrangalha teus lábios em sangue e chama desabrochados
Em outra boca qualquer outros lábios que não são os meus
Porque eu sòzinho ao crepúsculo de uma lâmpada apagada
No fundo silencioso e frígido do meu quarto vazio
Continuarei a esperar-te e a amar-te perdidamente
Na estupidez da minha ambiguidade incrível!
Embora eu possa e consiga viver sem ti
Rente aos meus lábios sem lábios
Eu morro lentamente por cima do que sou
Debruçado em meu poço transbordante
Que nehuma sede ainda me matou!
E eu hei-de coaxar noite fóra nessas águas
E esticar meus dedos de verme para as estrelas
E na noite imensurável que me cerca e me sufoca
Eu hei-de chafurdar no absurdo das minhas mágoas!
Quando eu passar hirto pelas ruas a caminho da terra fria
Sob o meu sonho poisado em núvens que os olhos não profanam
Eu sei que o teu adeus não assomará a nenhuma das janelas!
Mas deixa que eu sepúlcro do meu grito desgarrado
Prossiga por fim liberto sem derrotas nem vitórias
Balouçando aos ombros dos que me levam por ofício
Porque eu hei-de renascer em folhas verdes
Todas as primaveras deslumbrantes que hão-de vir
E flutuar no desprendimento doirado de todos os outonos
Nos braços do meu sonho intangível que o mundo julgou tocar
E que vão sustendo o sol no seu magnífico esplendor.
E as águas as aves as flores irão pròdigamente desabrochar
Em hinos de som de luz de vida e de cor
Quando alguém rendidamente à sua beira o meu nome pronunciar.
E eu não recusarei o meu nome a essa boca tão beijada
Porque o meu nome há-de ser lançado à terra com saudade
E desse nome dessa saudade e dessa terra pisada há-de brotar
Uma árvore grossa e altiva como um homem de braços tortos e crispados
Mil braços de homem erguidos aos céus num desvairado clamor
A lembrar ao mundo que eu passei na vida esguio e solitário
Com olhos de criança que chorou e com mãos de quem vai esmolando amor
E com esgares de quem o amor nunca na vida se lembrou!
E os braços hão-de encher-se de folhas verdes como poemas
Que eu pobre fraco e mortal nunca ousei escrever
E que a humanidade caminhando na rotina nunca saberia ler!
Então nos braços entroncados dessa árvore tosca e muda
As aves chilreando virão fazer os ninhos e pôr os ovos
E aos pés à sombra à beira deste homem apagado e despercebido
Os machos e as fêmeas vão fecundando os sexos furtivamente
E seus gritos de sofrimento de cio de gozo e de tédio
Vão-me deixando impávido estéril absorto indiferente!!!
Não me perguntes nunca mais pelos meus poemas as minhas dores
Nem venhas nunca mais bater-me à porta pedir loucas ventanias
Pergunta-me antes pelas minhas mãos que eu sempre vi vazias
E vem enchêlas de terra de raizes de frutos e de flores!
Não busques poesia nas minhas mãos doidas frias brancas e nuas
Porque a poesia a verdadeira poesia anda à solta perdida pelas ruas!
Rogério do Carmo
Lisboa, 4/7/1958
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